Forte. Forte e irritante era a sensação que aquela luz causava-me naquele quarto. Uma dor quase que insuportavel impedia-me de abrir os olhos e ver onde estava.
Deitada, sobre finos lençois macios, tal qual seda pura, onde sobre a minha pela saltavam como que penas de anjos de toque suave e quase imperceptível. Cabeça escorada sobre um travesseiro macio e felpudo que já adquirira a forma arredondada tamanho era o tempo de escoro sobre ele.
Quando acostumei-me com a luz, vislumbrei paredes brancas como o brilho das estrelas em um ambiente tão iluminado quanto o céu diurno. Tive aquela sensação de desconforto novamente.
Onde estava?
Lembrei-me da ultima imagem que vi, ele, falando-me com seus olhos ternos e seu sorriso que não me abandonaria novamente, falando-me em silêncio e em uma lingua que só nós conhecíamos. A língua dos nossos olhares.
Imaginei furtivamente quanto tempo estivera deitada, onde estava e se fora ele quem me levara para aquele lugar.
Assustador o sentimento de solidão em lugar estranho.
Havia de ser um sonho todo aquele momento, afinal, o deserto era um reflexão. Ou não? Seria realidade, ou simplesmente uma história acontecendo no interior imaginário de alguém que gostava de histórias?
Não sabia o que pensar, nem no que pensar. Eu sabia que o conhecia, mas para onde ele me levara? Por que? Lembrei-me de ter deixado as forças se esvairem do meu corpo, e quando caí, ele estava lá para segurar-me no colo, sem que eu me ferisse com a queda. Mas o que ele fizera comigo?
Continuei indagando-me por muito tempo, até que quase imperceptível movimento se fez na maçaneta da porta - Oh, havia uma porta. Antes não houvera reparado nela por estar camuflada em meio as paredes brancas, sequer tinha marcas de batente. Mais parecia uma passagem secreta - fazendo com que esta abrisse vagarosamente, sem barulho de dobradiças, como que se plainasse pelo chão alguém escorregou para dentro do quarto branco, e com os mesmos movimentos fechou a porta, sem o mínimo ruído.
Pânico e ao mesmo tempo tranquilidade. Era ele. Sabia que havia cuidado de mim todo esse tempo.
Ele olhou nos meus olhos, vira que eu estava acordada. Deu-me um largo sorriso. Uma expressão calorosa e amigável. Sentou-se ao meu lado na cama onde estava deitada. Passou seus dedos em uma mecha do meu cabelo que contornava meu rosto, colocando-a para trás. E disse: Está melhor?
Para meu espanto, dessa vez ele abriu a boca para falar. Era real. No deserto eu o ouvira, mas seus lábios não haviam se mechido, falara-me em silêncio. Mas agora, era real, o toque era real, o tom da voz era real, até a sua respiraçao controlada era real.
Se estou melhor, era isso o que ele me perguntara. Deveras estava mal quando ele me encontrara.
Saúde, deveria ser disso que ele falava. Não sentia dores, nem nauseas, estava limpa sem areia no corpo, e meu vigor e forças pareciam estar no mesmo lugar de sempre, dentro de mim, jogando cartas, esperando o momento de entrarem em ação. Então sim, eu estava melhor, e para responder-lhe acenei com a cabeça estampando um sorriso singelo nos lábios.
Ele sorriu. Vestia-se com uma roupa de época classica, tal qual reis e nobres da época das cruzadas, porém, com menos panos e tecidos mais leves, muito leves diga-se de passagem, traziam a forma exata, nem mais, nem menos, não sobrava pano e não faltava pano, a medida certa para o seu corpo, que pode-se dizer não era tão belo. Sem altas definições, apenas algumas marcações toráxicas e braçais que davam a entender que era forte o bastante para carregar alguem nos braços, porém nada de especial.
Usava tecidos macios como o dos lençois com toques de anjos. Uma roupa cor clara, como o brilho do sol assim que nasce em manhã de inverno, nem amarelo, nem pastel, o meio termo perfeito o suficiente para realçar a negra cor dos seus olhos e cabelos, finas linhas douradas desenhavam aquele tecido e o deixavam com ar de realeza, e formavam uma espécie de brasão ou simbolos para mim irreconhecíveis. Nunca os vira anteriormente.
Parecia tão real, mas deparando-me com ele, decorrendo meus olhos sobre ele, não pudera acreditar que era real. Só podia ser um sonho. Aquelas roupas, aquele lugar, ele. "Não, não é real" - pensei. Fechei meus olhos para voltar a realidade, quando o silêncio tomou conta do ambiente, não se ouvia sequer a sua respiração, foi quando senti alguém sobre mim, aquele alguém, um toque simples e leve, com tanta gentileza que me surpreendera, não estava acostumada com gestos assim. Ele me beijara, um toque de carinho e respeito, talvez um amor escondido, mas um beijo é um beijo, ainda que tenha sido na testa, é um beijo.
Eu sorri. Ele saiu do quarto em movimentos leves e precisos, novamente sem barulho.
Sentei-me na cama. pus-me a pensar se era ou não real. Lembrei do beijo. E novamente sorri.
Estava saudável, tranquila e segura, tinha certeza disso. E deixei-me cair na cama, olhando para o alto a pensar - "Com ele eu estava segura". Sorri.
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